Você já ouviu isso a vida inteira, provavelmente na igreja: o trabalho é castigo. Adão pecou, foi expulso do jardim, e a partir dali o homem teve que trabalhar. Se ninguém tivesse comido o fruto, hoje a gente estaria descansando.
É a explicação mais repetida que existe sobre trabalho na boca de alguns cristãos. E ela não sobrevive a um versículo do segundo capítulo da Bíblia.
O que o texto diz
[15] O Senhor Deus tomou o homem e o pôs no jardim do Éden para cultivá‑lo e guardá‑lo. · Gênesis 2:15 NVI
Guarde a posição desse versículo, porque é ela que resolve tudo.
O que vem no capítulo 2. A serpente só aparece no capítulo 3. O fruto, no capítulo 3. A queda, no capítulo 3. A maldição do solo, no capítulo 3. O trabalho está no capítulo 2.
O trabalho de cultivar a terra designado por Deus já estava lá antes de qualquer coisa dar errado. Antes do primeiro pecado, antes da primeira vergonha, antes da primeira morte. O homem foi colocado no jardim com uma função, e a função tinha verbo.
Não é mero detalhe. Se o trabalho existe antes da queda, ele não pode ser consequência dela. O que veio depois foi outra coisa, e a gente chega lá.
Dois verbos que mudam a conversa
O hebraico de Gênesis 2:15 usa duas palavras para descrever o que o homem faria no jardim. As traduções costumam traduzi-las como "cultivar" e "guardar", ou "lavrar" e "guardar".
A primeira é le'ovdah (לְעָבְדָהּ), da raiz avad (עבד). Essa raiz aparece na Bíblia inteira, e ela é a mesma palavra de servir. É dela que vem eved, servo. E é a mesma raiz que a Escritura usa para o serviço prestado a Deus, o que a gente chama de adoração, de culto.
Isso não é jogo de palavras, dá para conferir. Quando Deus chama Moisés na sarça, promete um sinal: "quando você tirar o povo do Egito, vocês prestarão culto a Deus neste monte" (Êxodo 3:12). "Prestarão culto" ali é a mesma raiz avad. O mesmo verbo que descreve trabalhar a terra descreve adorar a Deus. Uma raiz só, duas faces.
A segunda é leshomrah (לְשָׁמְרָהּ), da raiz shamar (שמר): guardar, vigiar, proteger, tomar conta. É a mesma raiz de "guardar os mandamentos". É a palavra do zelo de quem cuida de algo que não é seu.
Repare no que sobra quando você junta as duas.
O trabalho, na primeira vez que aparece na Bíblia, é serviço e é guardar. Não é esgotar o solo. Não é conquista. Não é produção pela produção. O homem não foi colocado no jardim para tirar dele o máximo possível; foi colocado para servi-lo e protegê-lo. O jardim não era dele. O homem era o cuidador.
E aqui está a coisa mais séria do versículo: a mesma raiz que descreve o trabalho no campo descreve o serviço diante de Deus. Não são dois compartimentos. Trabalhar, no desenho original de Deus, era uma forma de servir.
Então o cansaço é o quê?
Agora a pergunta honesta, porque se a gente parar aqui a série vira ingenuidade: se o trabalho é bom, por que a segunda-feira dói e cansa? O texto responde, e responde no capítulo 3.
[17] Finalmente, declarou ao homem: “Visto que você deu ouvidos à voz da sua mulher e comeu da árvore da qual ordenei a você que não comesse, maldita é a terra por sua causa; com dores você comerá dela todos os dias da sua vida. [18] Ela lhe fará brotar espinhos e ervas daninhas, e você comerá as plantas do campo.[19] Com o suor do seu rosto, você comerá o seu pão, até que volte à terra, visto que dela foi tirado; porque você é pó e ao pó voltará”. · Gênesis 3:17-19 NVI
Leia com atenção o que foi amaldiçoado. A terra. Não o trabalho.
O que a queda fez não foi criar o trabalho, foi quebrar o acordo, o pacto. Entrou o espinho. Entrou o suor. Entrou o esforço que rende menos do que devia, a frustração de plantar e não colher, a fadiga que não corresponde ao resultado. O trabalho continuou bom; o solo é que passou a resistir. Essa distinção não é acadêmica, é pastoral, e ela muda como você acorda amanhã.
Se o trabalho fosse maldição, o cansaço seria justo. Seria a sua parte no acerto de contas, e reclamar dele seria reclamar de uma sentença merecida. Mas se o trabalho é bom e o que quebrou foi a terra, então o cansaço não é a natureza da coisa. É a consequência dela. O que dói em você não é o desenho de Deus funcionando. É o desenho de Deus que foi violado.
Isso te dá o direito de nomear o que está errado sem culpa. Você não é ingrato por sentir o peso. Você está sentindo o espinho, e o espinho é o intruso aqui.
Onde isso te coloca
Vale separar três coisas que costumam vir embrulhadas juntas.
Trabalho não é castigo. Ele antecede a queda. Sua ocupação, seja ela qual for, não é a sua pena.
Cansaço não é santidade. Espinho é consequência de um mundo quebrado, não medalha. Ninguém é mais fiel por estar mais exausto. A Bíblia não pede que você ame o espinho.
E cuidado não é fraqueza. Se o verbo original é guardar, então proteger o que foi confiado a você faz parte do seu trabalho, não é fuga dele. Isso vale para o campo, vale para a sua equipe, e vale, escute bem, para o seu próprio corpo. Seu corpo também foi confiado a você.
O trabalho que Deus desenhou tem duas mãos: uma que serve e uma que guarda, e o problema começa quando alguém fica só com a primeira.
Pule alguns séculos à frente de Gênesis, para uma casa em Betânia. Jesus chega, e duas irmãs o recebem. Maria senta aos pés dele e ouve. Marta faz o que parece mais certo: serve. Cuida da casa, do preparo, de tudo o que uma visita daquelas exige. E a certa altura ela não aguenta e reclama, quer que Maria levante e a ajude. A resposta é uma das mais delicadas dos Evangelhos: "Marta, Marta, você está ansiosa e preocupada com muitas coisas". Leia.
O Senhor respondeu: [41] - Marta! Marta! Você está preocupada e inquieta com muitas coisas; [42] contudo, apenas uma é necessária. Maria escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada. · Lucas 10:41-42 NVI
Repare que Jesus não condena o serviço de Marta. Servir é bom, é avad. O que ele nomeia é outra coisa: ela serviu até virar ansiedade e perturbação. Serviu sem guardar nada, nem o próprio descanso, nem a presença de quem ela recebia e era a mais importante. A primeira mão trabalhando sozinha, a segunda largada ao chão.
Marta é o retrato de metade do jardim. E, se você for honesto, provavelmente é o seu retrato numa segunda-feira qualquer.
A maior parte da dor que a gente vive no trabalho, e os próximos seis dias vão mostrar isso texto por texto, vem de alguém que ficou só com a primeira mão. Serve, serve, serve, e ninguém guarda nada. Não era pra ser assim. E não foi assim que começou.
No próximo estudo
Se o trabalho é bom e o campo é que ficou danificado, sobra a pergunta de quem cuida do campo. Amanhã, dois chefes: um exige tijolo sem palha, o outro olha para o genro se acabando e manda parar. Êxodo (Shemot) 5 e 18.
Pergunta de hoje
Aponte uma coisa no seu trabalho ou no que você faz hoje que é espinho e que você vinha tratando como se fosse a natureza da coisa. Só nomeie. Nomear já é o começo de guardar.
Comentários
Deixe seu comentário