Existe um tipo de reclamação fácil e aceitável de acolher: sabe qual é? É a que aponta para longe de você.
O cliente difícil, o fornecedor que atrasou, a economia, o governo. Você ouve, concorda, promete olhar, e sai da conversa de consciência limpa, porque o culpado é sempre outro.
E existe o outro tipo. A reclamação que, se você ouvir de verdade, vai apontar o dedo para o sistema que você conduz. Para a meta que você bateu. Para a regra que você criou. Essa é difícil de acolher, e é justamente sobre ela que fala Neemias 5.
O clamor sobe
Neemias está reconstruindo o muro de Jerusalém. Obra grande, inimigos por fora, pressão de todo lado. É o tipo de projeto em que o líder está com a cabeça no cronograma, no perímetro, na ameaça externa. E então, do meio da própria obra, sobe um som que não estava no planejamento: gente reclamando. Não do inimigo. Dos próprios irmãos.
Ora, o povo, homens e mulheres, começou a reclamar muito dos seus irmãos judeus. Alguns diziam: "Nós, os nossos filhos e as nossas filhas somos numerosos; precisamos de trigo para comer e continuar vivos." Outros diziam: "Tivemos que penhorar as nossas terras, as nossas vinhas e as nossas casas para conseguir trigo e matar a fome." Havia ainda outros que diziam: "Tivemos que tomar dinheiro emprestado para pagar ao rei o imposto cobrado sobre as nossas terras e as nossas vinhas. Apesar de sermos do mesmo sangue dos nossos compatriotas e de os nossos filhos serem tão bons quanto os deles, ainda assim temos que sujeitar os nossos filhos e as nossas filhas à escravidão." · Neemias 5:1-5, NVI - Nova Versão Internacional
Ouça a progressão do clamor, porque ela desce em degraus. Primeiro é fome: precisamos de trigo para continuar vivos. Depois é dívida: penhoramos a terra para comer. Depois é o penhor virando escravidão: nossos filhos e filhas viraram escravos, e algumas filhas já foram entregues. É a espiral da pessoa que trabalha e ainda assim afunda. Trabalha na muralha de dia e não tem o que comer de noite. A obra avança, e quem trabalha para a levantar desmorona.
E o detalhe que Neemias não podia ignorar: a fome não vinha do inimigo do lado de fora do muro. Vinha de dentro. Os credores que apertavam o povo eram os nobres e os oficiais, a própria elite do projeto. O clamor que subiu acusava a estrutura que Neemias liderava.
O verbo do clamor
O texto hebraico usa uma palavra específica para esse grito do povo:
É a mesma raiz que aparece em Êxodo (Shemot) 3:7, quando Deus diz a Moisés que ouviu o clamor de Israel por causa dos que o oprimiam. E a raiz do verbo reaparece em Êxodo (Shemot) 22:22-23, onde Deus avisa que, se alguém oprimir a viúva ou o órfão e eles clamarem a Ele, Ele ouvirá o clamor.
Isso muda o peso da cena. O clamor do povo em Neemias 5 não é resmungo de gente mal-acostumada. É a mesma palavra que descreve o grito dos escravos no Egito, o grito que faz Deus se mover. Quando esse tipo de clamor sobe e chega ao ouvido de quem tem poder, a Escritura trata como assunto sério. Deus mesmo se posiciona como aquele que ouve.
O que Neemias faz com o clamor
Aqui o estudo poderia seguir dois caminhos ruins, os dois comuns em qualquer liderança. Neemias podia ter ignorado, porque a obra é prioridade e o emocional de gente não desacelera a construção do muro. Ou podia ter feito teatro da escuta: reunir todo mundo, dizer "eu entendo vocês, é um momento difícil", montar um comitê, e não mudar nada. Escuta que serve para a pessoa desabafar e ir embora sem nada resolvido.
Ele não faz nenhum dos dois.
Quando ouvi a reclamação e essas acusações, fiquei furioso. Depois de refletir no meu coração sobre tudo isso, repreendi os nobres e os oficiais, dizendo-lhes: "Vocês estão cobrando juros dos seus compatriotas!" · Neemias 5:6-7
Repare na sequência exata, porque ela é uma pequena aula de como se ouve de verdade. Primeiro ele sente: fica furioso. A indignação diante da injustiça não é falha de temperamento, é sinal de que ouviu com o coração e está disposto a mudar qualquer situação, não só com o protocolo. Segundo ele pensa: "depois de refletir no meu coração". Não explode na hora. Processa, calcula, decide. E só então ele age, e age contra quem tinha poder, não contra quem clamava.
E a ação é real, não simbólica. Ele reúne os credores e exige a devolução:
"Devolvam-lhes imediatamente as suas terras, as suas vinhas, as suas oliveiras e as suas casas, bem como os juros que cobraram deles." · Neemias 5:11
Devolvam. Imediatamente. Terra, vinha, casa, juros: a lista inteira do que foi tirado. Escutar, para Neemias, terminou em restituição. O clamor era material, e a resposta foi material. Ninguém sai daquela assembleia com uma palavra de conforto e a barriga vazia.
E tem um detalhe que blinda Neemias da acusação de fariseu. No versículo 10, antes de mandar os outros devolverem, ele confessa que ele próprio, os irmãos dele e os homens dele também estavam emprestando dinheiro e trigo ao povo. Ele não se exclui da conta. "Vamos acabar com a cobrança de juros", diz, incluindo a si mesmo no "vamos". Quem cobra mudança dos outros e não muda a si mesmo faz discurso. Neemias começou a devolução sendo ele o próprio exemplo.
O problema embaixo, o poder em cima
Como no estudo do gestor [lincar o estudo], repare de novo em onde o problema aparece e onde mora a solução.
O clamor sobe de baixo: dos que penhoraram a terra, dos pais que viram filhos virarem escravos. Essa gente não tinha poder de mudar a própria dívida. Um endividado não decreta o próprio perdão. A solução estava em cima, na mão dos nobres que cobravam os juros, e na mão de Neemias, que tinha autoridade para convocá-los e obrigá-los a devolver.
É por isso que este estudo é para você que ouve. Se você é pai, mãe, líder, pastor, gestor. Se alguém que responde a você está clamando (o seu filho (a), funcionário sobrecarregado, o voluntário que não dá conta, o colega que sinaliza que algo está insustentável), a chave da solução quase nunca está na mão de quem clama. Está na sua. A pessoa embaixo não muda o próprio peso. Você, que está em cima, muda.
E a pergunta desconfortável é essa: quando o clamor que sobe até você acusa o seu sistema, a sua meta, o seu jeito de conduzir, você fica furioso com a injustiça, como Neemias, ou fica furioso com quem reclamou? Porque dá para ouvir a mesma reclamação de dois jeitos: "que problema real, preciso mudar isto", ou "que gente ingrata, depois de tudo que eu faço". O primeiro é Neemias. O segundo é o começo do Faraó que endureceu o coração diante do clamor do povo.
Ouvir custa
Vale ser honesto sobre o preço. Quando Neemias mandou devolver terras, vinhas e juros, alguém perdeu dinheiro. Os nobres abriram mão de uma receita real. Ouvir o clamor não saiu de graça para quem estava em cima; saiu caro. Foi por isso que Neemias precisou de uma assembleia, de um juramento diante dos sacerdotes e até de um gesto dramático, sacudir a dobra do próprio manto, pedindo que Deus sacudisse assim todo aquele que não cumprisse. Ele sabia que a tentação de voltar atrás, de recomeçar a cobrar assim que a poeira baixasse, era grande.
Escutar de verdade quase sempre cobra alguma coisa de quem escuta. Tempo, dinheiro, conforto, a revisão de uma meta que era conveniente. Se a sua escuta nunca te custa nada, provavelmente é teatro de escuta. O clamor chegou, você acenou com a cabeça, e a vida de quem clamou continuou igual. Neemias mediu o custo, olhou para o rosto de quem passava fome, e pagou.
A norma de hoje diz que ouvir o trabalhador é dever do gestor, e que o canal de escuta precisa gerar ação, não só registro. Neemias fez exatamente isso séculos antes de qualquer norma: ouviu, se indignou, pensou e restituiu. O clamor que sobe e a mão que devolve o que foi tirado: a Escritura já sabia que ouvir sem agir não é ouvir. Está escrito.
Eu te pergunto
Qual foi o último clamor que subiu até você, alguém sob seu cuidado sinalizando que algo estava pesado demais? Você ficou furioso com a injustiça, ou furioso com quem reclamou? E, sinceramente: a sua escuta terminou em alguma mudança que te custou algo, ou terminou num aceno de cabeça?
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