Objetivos do estudo
Evangelho de Mateus
Compreender a Bíblia no contexto original judaico.
Capítulo 17
A transfiguração de Jesus no monte
Entendimento dos versos 1 ao 8 · Fernando rabello
Seis dias após anunciar sua morte e ressurreição aos discípulos, Jesus levou Pedro e João a uma alta montanha. Lá, Ele foi transfigurado: Seu rosto brilhou como o sol, e suas vestes tornaram-se brancas como a luz. Moisés e Elias apareceram em visão aos discípulos, falando com Jesus. Pedro, impressionado, ofereceu-se para fazer três tendas para eles. Subitamente, uma nuvem luminosa os envolveu, e uma voz da nuvem proclamou: “Este é o meu Filho amado, em quem me agrado. Ouçam-no!” Os discípulos, assustados, caíram de rosto no chão. Mas Jesus os tocou, dizendo: “Levantem-se e não tenham medo.” Ao olharem, viram Jesus sozinho.
No relato de Mateus, as semelhanças entre Jesus e Moisés são notáveis. Assim como Moisés se transfigurou ao encontrar-se com Deus no Sinai e suas feições brilharam ao ponto de necessitar um véu, Jesus também se transfigura, com seu rosto resplandecendo e suas vestes tornando-se brancas como a neve. Moisés simboliza a Lei dada por Deus, enquanto Elias representa o ciclo profético. Ambos, figurando a Lei e os Profetas, testemunham a missão messiânica de Jesus, confirmada pela voz de Deus que declara seu prazer no Filho amado. Diante dessa visão transcendental, recebemos uma instrução divina: ouvir o Enviado, Jesus.
A nuvem e a voz divina são temas recorrentes na Bíblia Hebraica, conhecida também como Antigo Testamento, que aparecem em momentos de revelação divina e legitimação da autoridade de alguém escolhido por Deus. Aqui estão alguns paralelos notáveis:
O aparecimento de Moisés e Elias durante a transfiguração de Jesus no Novo Testamento é simbólico:
Ambos são figuras centrais do judaísmo e representam dois dos três principais componentes do Tanakh: a Lei (Torá) e os Profetas (Nevi’im). A sua presença na transfiguração sinaliza que Jesus é o cumprimento das Escrituras Hebraicas, unindo e transcendendo ambas as tradições. A voz que confirma Jesus como o “Filho amado” de Deus reforça a ideia de que Jesus é a autoridade suprema, a quem devemos ouvir, indo além da Lei e dos Profetas.
Entendimento dos versos 9 ao 13 · Fernando rabello
Ao descerem do monte, Jesus ordenou aos discípulos que não contassem a ninguém sobre a visão que tiveram, ao menos até que o Filho do Homem ressuscitasse dos mortos. Os discípulos, curiosos, questionaram por que os escribas ensinavam que Elias deveria vir primeiro para restaurar todas as coisas, conforme a profecia de Malaquias 4:5. Este trecho anuncia que Elias prepararia o caminho para uma grande reconciliação antes da chegada do Senhor, evitando uma destruição total. O intervalo entre Malaquias e Jesus, que marca pelo menos 400 anos, foi o período de espera até o cumprimento dessa promessa divina.
Jesus esclareceu que Elias já havia vindo na pessoa de João Batista, mas não foi reconhecido e sofreu às mãos daqueles que se opunham a ele, prefigurando o próprio destino de Jesus. Ao dizer que João era a representação de Elias, Jesus não falava de reencarnação, prática refutada pela doutrina judaico-cristã, mas sim que João Batista adotou o espírito e o poder de Elias em sua missão. Assim como Elias desafiou Acabe e os profetas de Baal, João desafiou Herodes e pregou o arrependimento no deserto, acabando martirizado. A figura de Simeão, que reconheceu Jesus como o Messias no Templo, contrasta fortemente com a cegueira espiritual dos escribas e destaca a capacidade de Deus de revelar Seus planos a quem tem o coração aberto, independentemente de seu status ou conhecimento.
Veja o que aconteceu:
Em Jerusalém morava um homem chamado Simeão. Ele era bom e piedoso e esperava a salvação do povo de Israel. O Espírito Santo estava com ele,
e o próprio Espírito lhe tinha prometido que, antes de morrer, ele iria ver o Messias enviado pelo Senhor.
Guiado pelo Espírito, Simeão foi ao Templo. Quando os pais levaram o menino Jesus ao Templo para fazer o que a Lei manda,
Simeão pegou o menino no colo e louvou a Deus. Ele disse:
- Agora, Senhor, cumpriste a promessa
que fizeste
e já podes deixar este teu servo
partir em paz.
Pois eu já vi com os meus próprios olhos
a tua salvação,
que preparaste na presença
de todos os povos:
uma luz para mostrar o teu caminho
a todos os que não são judeus
e para dar glória ao teu povo de Israel.
O pai e a mãe do menino ficaram admirados com o que Simeão disse a respeito dele.
Simeão os abençoou e disse a Maria, a mãe de Jesus:
- Este menino foi escolhido por Deus tanto para a destruição como para a salvação de muita gente em Israel. Ele vai ser um sinal de Deus; muitas pessoas falarão contra ele,
e assim os pensamentos secretos delas serão conhecidos. E a tristeza, como uma espada afiada, cortará o seu coração, Maria.
O endemoninhado epilético
Entendimento dos versos 14 ao 21 · Fernando rabello
Ao descerem do monte, foram abordados por um homem desesperado que suplicava a Jesus por compaixão para com seu filho, afligido por uma possessão demoníaca que lhe causava ataques epilépticos severos. Esse espírito maligno atormentava o menino com convulsões, fazendo-o cair ao chão e espumar pela boca em episódios perturbadores. O pai do menino já havia buscado ajuda nos discípulos, mas sem sucesso, eles não conseguiram libertá-lo da opressão.
Jesus, diante da incapacidade de Seus discípulos, expressou sua frustração com a geração incrédula e tomou para Si a tarefa de curar o menino, repreendendo o demônio para que jamais o atormentasse novamente. Após a libertação do jovem, os discípulos, confusos e provavelmente desapontados, questionaram Jesus em particular sobre a razão de seu fracasso. Jesus foi claro: a ausência de fé foi o obstáculo. Ele explicou que a fé, mesmo do tamanho de um grão de mostarda, poderia realizar feitos inimagináveis, incluindo ordenar a uma montanha que se mudasse, e ela obedeceria.
Essa narrativa ressalta a importância da fé ativa não apenas para quem busca a cura, mas também para quem intercede em nome de Jesus. A fé do intercessor é crucial, especialmente quando aquele por quem se ora está incapacitado por influências malignas e sem a capacidade de crer por si próprio.
Observações:
É importante notar que, em algumas versões da Bíblia, após essa lição de fé, Jesus menciona a necessidade de oração e jejum para expulsar certos tipos de espíritos malignos. Este detalhe é mencionado especificamente no Evangelho de Marcos, enquanto em Mateus aparece como uma inserção dentro de colchetes.
Segundo anúncio sobre sua morte
Entendimento dos versos 22 ao 23 · Fernando rabello
No segundo anúncio sobre Sua morte, Jesus falou de forma clara e direta aos Seus discípulos, sem deixar margem para dúvidas ou interpretações equivocadas. Ele os informou que o momento de cumprir as Escrituras referentes à Sua morte e ressurreição estava próximo. Diante dessa revelação, os discípulos se entristeceram profundamente. A tristeza deles era compreensível; afinal, conviviam com Jesus todos os dias e compartilhavam com Ele uma conexão única e profunda. Imaginar que mesmo dois mil anos depois, nós podemos sentir a angústia daquele momento, dá-nos uma ideia da intensidade do luto e da confusão que os discípulos experimentaram ao ouvir tais palavras de Jesus.
O tributo para o Templo
Entendimento dos versos 24 ao 27 · Fernando rabello
Ao chegarem a Cafarnaum, Jesus e Seus discípulos foram abordados pelos cobradores do tributo do Templo. Este imposto era destinado a cobrir as despesas do local sagrado e deveria ser pago em didracma¹, o equivalente a dois dias de trabalho de um trabalhador comum. O coletor questiona Pedro sobre a responsabilidade de Jesus em pagar tal imposto, ao que Pedro responde afirmativamente. Mais tarde, em uma casa, Jesus inicia uma conversa com Pedro, perguntando-lhe: “Os reis da terra cobram tributos e impostos de quem? De seus próprios filhos ou de estranhos?” Pedro reconhece que os estranhos são os contribuintes, e Jesus, elucidando a situação, diz: “Então os filhos estão isentos. No entanto, para não causarmos escândalo, vá até o mar, lance o anzol e pegue o primeiro peixe que morder. Ao abrir-lhe a boca, você encontrará uma moeda. Use-a para pagar o tributo por mim e por você.”
A menção de Jesus ao pagamento do tributo aponta para uma realidade futura, onde o Templo de Jerusalém, e consequentemente a necessidade de tal imposto, não existiriam mais. Jesus prenuncia a destruição do Templo e Sua própria ressurreição como o novo e verdadeiro Templo, onde os sacrifícios não seriam mais necessários, pois Ele mesmo seria o sacrifício perfeito. A destruição física do Templo ocorreu no ano 70 pelos romanos, simbolizando o fim de uma era e o sistema religioso provisório que apontava para o Messias. Ao morrer na cruz, o véu do Templo se rasga, simbolizando o acesso direto a Deus sem intermediários. Assim, o Templo, as cerimônias e os sacrifícios passam a ter seu cumprimento final em Jesus, nosso sumo sacerdote eterno, conforme descrito no livro de Hebreus, capítulos 5 e 8, na ordem de Melquisedeque. Jesus, ao falar sobre a reconstrução do Templo em três dias, referia-se à Sua ressurreição, que os líderes religiosos da época não conseguiram compreender. A referência ao Templo e ao tributo, portanto, ultrapassa as normas humanas e revela o cumprimento profético no Messias Salvador.
Notas de rodapé:
¹ - A didracma era uma moeda de prata que equivalia a duas dracmas. Geralmente essa moeda era utilizada pelos judeus para pagar o imposto anual para o Templo . A dracma equivalia ao salário diário de um trabalhador comum, já a didracma era o dobro do valor considerando aqui dois dias de trabalho.
Fonte:O Que é Dracma e Qual Seu Significado? (estiloadoracao.com)- Acessado: 17/04/2023
Moeda dracma
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